Fotojornalista, contador de histórias ou manipulador? O debate em torno de Steve McCurry

 

Pode um fotógrafo reconhecido mundialmente pelo seu talento manipular descaradamente uma imagem? Até que ponto é ético fazê-lo? O debate estalou depois de um fotógrafo italiano ter descoberto que várias fotografias de Steve McCurry, o homem que em 1985 captou uma das imagens mais icónicas do século XX, tinham sido alterado digitalmente.

O caso foi descoberto em Abril mas só agora Steve McCurry veio explicar o que de facto aconteceu. “Tento estar envolvido, tanto quanto posso, no processo de revisão, supervisão e revelação do meu trabalho. Mas muitas vezes as [fotografias] são reveladas e enviadas quando estou longe. Foi o que aconteceu neste caso. Escusado será dizer que o que aconteceu com estas imagens foi um erro pelo qual tenho de assumir responsabilidades. Tomei medidas para alterar os procedimentos que são seguidos no meu estúdio de maneira a prevenir que algo deste género se repita”, garantiu o fotógrafo, num comunicado enviado à PetaPixel, um dos blogues de fotografia mais influentes do mundo.

A primeira imagem foi descoberta pelo fotógrafo italiano Paolo Viglione, durante uma exposição do artista norte-americano em Itália. O colega de McCurry reparou numa fotografia com várias incongruências, que só podiam ser o resultado de um claro erro de Photoshop. Viglione decidiu então denunciar o caso no seu blogue pessoal (que não permite a utilização da imagem original) e as repercussões nas redes sociais foram imediatas.

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O caso não ficou por aqui. O portefólio do fotógrafo foi amplamente escrutinado e foram descobertas mais imagens manipuladas.

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Aqui, a fotografia original, captada por Steve McCurry em 1983. Em baixo, a versão manipulada onde se nota a ausência do rapaz que deveria estar atrás do menino que chuta a bola. A análise está disponível no blogue PetaPixel.

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Os casos de imagens manipuladas sucederam-se uns atrás dos outros e aquilo que parecia ser um simples (e até caricato) erro de Photoshop tornou-se num escândalo no meio fotográfico, como lembra o PetaPixel.

Gianmarco Maraviglia, fundador e director da agência Echo Photojournalism, não poupou o fotógrafo norte-americano: “O que ele fez no Photoshop está completamente fora dos limites do poder da profissão. Na minha opinião, ninguém deve mexer num único píxel” quando se trata de fotojornalismo.

Também Sean D. Elliot, o responsável pelo comité ético da National Press Photographer’s Association (NPPA), veio a terreiro defender que McCurry “tem a responsabilidade de manter os padrões éticos dos seus colegas e do público, que o veem como um fotojornalista”. “Qualquer alteração da verdade jornalística das suas imagens, qualquer manipulação dos factos (…) constitui um lapso ético.”

Pressionado pelas críticas, Steve McCurry, em declarações à Time, e já depois de assumir a responsabilidade pelo que aconteceu, deixou claro que o seu trabalho já não se enquadra na categoria de “fotojornalismo”. “Sou um contador de histórias visuais”, explicou o norte-americano.

Ainda assim, a explicação de McCurry não convenceu toda a gente. Aquele que é um dos mais reconhecidos e conceituados fotógrafos do mundo não deixou de reconhecer que a “confusão” criada pelo caso, sobretudo porque as pessoas “pensam que eu ainda sou um fotojornalista”.

in Observador

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